☆ ☆ ☽✪☾ - Vida Lôka, louca vida na BR... - ☽✪☾ ☆ ☆
quarta-feira, 25 de março de 2015
sexta-feira, 12 de dezembro de 2014
Introdução - A estrada
A tarde ia caindo e eu na beira da estrada que saia de Promissão. Na via, via poucos carros indo e vindo, nada anormal para uma estradinha de uma cidade do interior, do interior de São Paulo. Tarde bela, o céu avermelhado do final da estação primaveril, os campos, pastos, fazendas e as plantações de cana-de-açúcar eram uma poesia aos meus olhos. Como era bela aquela tarde.
Eu seguia na estrada, walkman e uma mochila contendo o básico, ia andando ouvindo as melhores de Raul Seixas no fone, cantarolava feita uma doidivanas sem dar importância a muita coisa e só ansiava chegar a rodovia Marechal Rondon para dali iniciar uma nova jornada das muitas que tinha vivido até aquele momento. Uma amiga de minha irmã dizia que eu deveria ter antepassados ciganos pelo fato de eu amar caminhar; vai saber...
Enfim, cheguei a rodovia com maior tráfego de caminhões e carros, estava eu novamente fazendo a linha carona parada ali naquele pequeno posto de gasolina. Quanta poeira de estrada e fuligem na minha cara. A noite ia chegando e nenhum caminhoneiro disponível a me ajudar a sair dali. As estrelas já enchiam o céu quando consegui uma carona que me deixaria na estrada que ia até Marília, o caminhoneiro me deixou em um outro posto meio que isolado naquela estrada, mas minha aventura tinha se iniciado e ali naquele posto com luz bruchulenta em meio a escuridão da estrada dormi.
Meus olhos abriram com os primeiros raios de Sol sobre mim, andei até o banheiro do posto e ali fiz minha higiene matinal. Voltando para a pista, esticava o braço e mostrava meu polegar a todo veículo que passava. Assim consegui outra carona que me levaria a Marília, fiz um 'programinha' com o caminhoneiro e isso me renderia o café da manhã quando eu chegasse a cidade. E assim aconteceu! Mas não podia me deter ali naquela cidade, meu destino era outro, o destino indicado por um pêndulo de cristal e um mapa. Assim fui andando para a saída da cidade, andei muito, parecia interminável esta andança. Finalmente começou a delinear-se em minha frente outra rodovia, imaginava ser esta a via que ligava Marília ao Paraná. Fiquei animada, como me senti feliz. Continuei andando, atravessei um pedágio e vi a via se bifurcar em uma grande rodovia e uma pequena estrada, analisei as placas e para meu espanto a pequena estrada era meu caminho, o caminho pra Jacarezinho.
Me direcionei naquela pequena estrada e iniciei a peregrinação. Logo percebi o baixo movimento da estrada, com um baixo fluxo de tráfego, mas mantive a esperança de uma carona milagrosa. Continuei andando, o Sol a pino, eu suada e cheia de poeira de estrada, andando e andando, morta de sede. A paisagem era magnífica, a margem esquerda da estrada ao longe via um rio que de tão grande parecia um imenso lago. Havia muitos barcos pesqueiros no rio e eu pensando que a sede me dominava. Chegar até aquele rio era quase impossível, cercas e mata cerrada me impediam de tentar tal empreitada, o fato real é que eu deveria continuar andando com sede e com o sol sobre minha cabeça. Andei, andei, andei... muitas coisas passavam em minha cabeça, minha vida e a busca de um sentido agradável para ela. Já tinha feito muitas aventuras semelhantes a esta, mas esta jornada foi-me indicada através de um pêndulo de cristal sobre um mapa do Brasil em um determinado momento de ócio. Segundo a radiestesia o estado de Santa Catarina tinha uma boa vibração em minha vida e que sua capital, Florianópolis - a ilha da magia, tinha um especial destino me aguardando. Outras coisas se formaram em minha mente durante a tarde que passava e minha garganta já doía devido a sede, continuei firme na decisão de não me render ou voltar atrás agora, assim segui...
Muito já havia andado, exausta estava, mas como uma fata morgana ao longe avistei um posto. A esperança voltava. Fui me aproximando toda contente e logo percebi que era apenas um posto abandonado a beira da estrada. A alegria se esvaiu, meu semblante definitivamente mudou, vi uma torneira no posto e um lampejo de esperança avivou-me. Fui em direção a minha possível salvadora e abri a torneira que para minha sorte tinha água no cano, água morna, porém era pra mim o elixir da vida. Enchi minha garrafinha de água e parti a caminhar.
Enquanto caminhava a procura de uma cidade, vilarejo ou algo do gênero, me pus a pensar novamente em minha vida, com o preconceito camuflado da minha família pelo que me tornei, das decepções que tive pelo fato de ter escolhido uma via solitária, ter um visual excêntrico e não tão casual. Isso tudo ajudou-me a chegar até ali no meio daquela estrada até então desconhecida pra mim. Pensava na cômica incerteza do futuro, na vida programada de todos, que na verdade eram apenas ilusões pelo simples fato de que a mão de Nêmesis poderia desfazer qualquer programação feita pelos mortais cheios de sonhos. A vida é realmente frágil vista por este prisma facetado de incertezas. E assim andava e pensava.
O dia já ia se despedindo, o céu com seu tom avermelhado, o crepúsculo tomava forma e como uma surpresa, vi novamente ao longe um posto e atrás dele as luzes de uma cidadezinha. Fui me aproximando, era um posto ativo e logo me informei com o frentista se naquela cidadezinha havia algum albergue onde eu poderia passar a noite. O frentista tirou o boné, coçou a cabeça e me informou que não havia albergue ali. Fiquei chocada e um tanto decepcionada. Vendo meu semblante, disse:
_ A 8 km atrás da direção que você veio, há uma pequena cidade que possui um abrigo para andarilhos.
_ Mas como? _ disse eu. Não vi nenhuma cidade enquanto caminhava!
_ Deve ser por causa da claridade do dia. _ replicou. Agora de noite você poderá ver as luzes da cidade acesas.
Ponderei e resolvi regressar os 8 km, agradeci a informação e me fui. Como é bela a noite no meio da estrada, milhares de fagulhas luminosas a brilhar no céu. De fato avistei as luzes da cidade que durante o dia passaram despercebidos. Adentrei uma rua de terra e segui até encontrar pessoas e ruas. Perguntei para um ou outro onde havia um albergue, mas para minha infelicidade, ninguém sabia informar. Caminhei buscando, quando me deparei com um senhor de idade, de pele escura e chapéu de palha, pra mim um autêntico 'preto velho'. Ele me disse que estava indo pro abrigo também; feliz resolvi segui-lo.
Assim cheguei e fui logo abrigada na casa modesta, colocaram-me em um quarto com outros muitos. Uns roncavam e o mal cheiro infestava o quarto, isso não me incomodou como me incomodaria em outras ocasiões, estava cansada em demasia para me incomodar. Assim dormi o sono dos cansados.
Fui acordada com os demais abrigados naquele casebre simples mas deveras acolhedor, foi revigorante. Uma senhora de meia idade servia uma xícara de café puro e amargo para aqueles que pernoitaram na casa. Dali saí para retornar minha odisseia, voltei para estrada tentando carona e nada consegui senão andar os 8 km e parar no posto do dia anterior. Fiquei ali por um bom tempo, quando um outro frentista me sugeriu buscar ajuda na cidadezinha situada atrás do posto, disse para eu procurar a assistência social e consegui uma passagem para alguma cidade maior. Concordei de pronto.
Havia um enorme pasto que separava a rodovia e seu posto da cidadezinha, passei pela cerca de arame farpado e atravessei toda aquela pastagem cheia de carrapichos chegando monstruosamente na cidade. Perguntei para alguns transeuntes onde ficava a prefeitura o que de imediato me informaram e detalharam o caminho. Cheguei na simples prefeitura daquela cidade e para minha surpresa me deparei logo de cara com o próprio prefeito da cidade. Expliquei-lhe minha situação e para onde eu desejava ir. Ele disse que iria ligar para o tesoureiro que estava em horário de almoço e pediu que eu voltasse as 14 hrs e ele me ajudaria. Perguntou-me se estava com fome, disse que sim, sacou do bolso uma nota de 5 reais e me deu e assim saiu para o próprio almoço.
Segui a procura de uma padaria que facilmente encontrei, realmente a cidade era bem pequenina. Comprei uns pães e mortadela, tentei achar um lugar discreto para fazer minha frugal refeição, confesso que sempre tive vergonha de comer no meio da rua como um sem teto, agora penso que bobagem, mas na época isso era patologicamente sério. Avistei uma igreja evangélica e me refugiei atrás dela e ali comecei a comer. Alguns segundos se passou e apareceu um homem dizendo que eu não poderia comer ou ficar ali, neste instante surgiu o sentimento decepcionante que me seguiria pela vida em relação aos homens de Deus.
As 14 hrs estava eu de volta a prefeitura, o tesoureiro me esperava, disse que poderia me ajudar com 10 reais e com esse dinheiro disse para eu comprar uma passagem até onde poderia ir com tal quantia. aceitei e fui para a pequena rodoviária da cidade. No guichê vi que a grana me levaria até Ponta Grossa, comprei a passagem e aguardei o ônibus. a viajem ficaria bem mais fácil assim. O ônibus saiu, ônibus cujo destino final na realidade era Curitiba. Que viajem agradável, passou-se algumas horas e o ônibus quebrou tendo que entrar em uma outra cidadezinha do Paraná. Como era bela e tipicamente européia a aparência daquela cidade. Permanecemos por uma hora e meia até o concerto do ônibus. Seguimos viajem. Já era noite quando o ônibus chegou em Ponta Grossa, o motorista perguntou quem iria descer, me fingi dormindo, chegaria a qualquer custo naquela noite em Curitiba.
Eram umas 10 horas da noite quando desembarquei em Curitiba. Procurei uma orientação de como conseguir um albergue ali. Fui encaminhada para uma van que me transportou para o albergue da cidade. Guardaram minha modesta bagagem e me deram um cartão para poder pegá-la no dia seguinte, me trouxeram uma toalha e um pijama, encaminhei-me para o banho que me devolveu a auto estima quase toda perdida no asfalto. Fui até o refeitório onde me serviram pão com manteiga, manteiga mesmo e um copão de leite com chocolate. Dirigiram-me até o dormitório com muitas beliches tudo bem organizado e limpinho e dormi novamente como criança exausta.
Ao acordarem todos, seguimos para o refeitório onde novamente foi servido pão com manteiga e um copo de chocolate quente. Em seguida me dirigi ao bagageiro do abrigo e retirei minha mochila. Fiquei sabendo que era possível passar com a assistente social do albergue e assim me dirigi até o ponto onde se adquiria a senha para tal consulta. Fiquei a esperar por um bom tempo até o painel mostrar o número da minha senha. Entrei na sala e expliquei minha situação e para qual destino eu almejava ir. Ela disse que só poderia me arranjar uma passagem para Florianópolis caso eu houvesse algum familiar lá e poder comprovar isso. Bati a real e ela não pode me ajudar, mas me deu um ticket onde eu poderia almoçar na rede social, que anos mais tarde Alckmin plagiou em São Paulo. Almocei e percebi como a providência divina era boa. Revigorada com a substancial refeição pus-me a andar novamente tentando encontrar a saída daquela cidade. Novamente andei, andei, andei...
Cheguei a rodovia BR 376 e a placa me informava que estava chegando a São José dos Pinhais. Quase me aproximando de outro posto, me deparei com um jovem frentista indo trabalhar naquele posto logo ali. Ele me parou e me fez várias perguntas da qual respondi com sinceridade. Disse que se eu não conseguisse carona eu poderia dormir na casa dele depois que largasse o expediente de trabalho no posto; ele disse que tinha uma grande coleção de fitas pornográficas em sua casa e que poderíamos assisti-las durante a madrugada. Agradeci a oferta e deixei a esperança nele e fui esticando meu dedo polegar a todo veículo que passava. De repente algo estranho e inusitado para mim aconteceu, uma espessa neblina se apoderou daquele local, mal podia ver minha mão estendida a minha frente quanto mais ver algum carro ou caminha vindo. Fiquei petrificada, pensava que teria que ver mesmo os filmes pornôs com o frentista.
Fiquei a esperar, mas a neblina ficava cada vez pior. Num lance mágico e de sorte uma caminhoneiro conseguiu me ver em meio as brumas e parou no acostamento. Corri na direção do caminhão e a porta do passageiro se abriu. Ele perguntou-me pra onde eu ia, respondi que queria chegar a Florianópolis. Informou-me que ele se dirigia até Porto Alegre pela BR 101 e que poderia me deixar na boca de Floripa. Sem pestanejar subi e me acomodei na boleia do caminhão. O senho simpático disse:
_ Qual seu nome??
Me detive um instante antes de responder. Quem era eu mesmo? Nasci Daniel, me transformei em Lilith, transmutei-me em Nahema e agora quem eu era? Recordei-me da Deusa dos celtas irlandeses, do livro de Paulo Coelho e da novela que estava passando na rede Manchete. Sorrindo disse:
_ Me chamo Brida.
Fechei a porta do caminhão, pedi para o caminhoneiro botar a minha fita cassete do Raul em seu tape e seguimos viajem neblina adentro. Uma viajem que mal começou...
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